sexta-feira, 26 de maio de 2017

O tema que é sempre um tabu: Drogas

O cenário está mudando. Pouco a pouco diversos países tem mudado a maneira como tratam usuários de drogas (vamos esquecer por um breve momento como o prefeito de SP tratou os usuários da cracolândia essa semana) e a maneira como veem as drogas. No início desse mês, a ANVISA mudou o Denominação Comum Brasileira (DCB) da Cannabis, passando a considerá-la como planta medicinal. Para evitar confusões, segundo a própria ANVISA, esse fato não é o reconhecimento da Cannabis como planta medicinal (Hein?). A inclusão da Cannabis no DCB como planta medicinal não implica reconhecê-la como tal, somente indica que ela tem potencial para ser uma planta medicinal (através de pesquisas) ou pode ser importada como planta medicinal ou utilizada como insumo farmacêutico que receba essa nomenclatura (confuso, mas ok).


O caminho ainda está sendo percorrido lentamente, mas é fato que nos últimos anos tem existido mais visibilidade sobre questões de legalização, uso de drogas, tratamentos, pesquisas, etc. Só no Brasil, por exemplo, desde 2015, a ANVISA vem tomando medidas que facilitam a importação, uso e prescrição de medicamentos a base de canabidiol. Ainda está longe de ser o cenário ideal, mas estamos chegando lá. A área de pesquisa também se beneficia com todo o debate. Além de a importação de substâncias derivadas da maconha ficar cada vez menos burocrática, as pessoas começam a entender e perder um pouco do preconceito em relação ao uso terapêutico da droga. Esse ano, a USP de Ribeirão Preto, anunciou o primeiro centro de pesquisas em canabidiol do Brasil. Além desse centro, ainda existem pesquisadores de outras universidades (UNB, UNIFESP, UFRGS por exemplo) estudando efeitos terapêuticos de substâncias extraídas da maconha. Segundo pesquisadores da área, o Brasil está se tornando referência em pesquisa no tema.
Para além da maconha, também foi publicado esse mês o estudo anual da Global Drug Survey (GDS) com mais de 115 mil questionários analisados. GDS é uma companhia de pesquisa independente que tem por objetivo tornar o uso de drogas mais seguro, independente da questão da legalização. Para isso, eles fornecem informações baseadas em pesquisas com indivíduos, comunidade, organizações de saúde e policiais. Todo ano eles publicam uma pesquisa que mostra como o mundo das drogas está se modificando, questões de segurança e tendências de uso de novas drogas. Esse ano, o Global Drug Survey 2017 utilizou dados de 25 países para compor uma análise sobre diversos aspectos das drogas. Segundo os dados, 79% dos entrevistados já utilizaram drogas ilegais e mais de 99% já usaram drogas legalizadas. As drogas mais utilizadas foram álcool (98,7%), seguida pela Cannabis (77,8%) e tabaco (63,1%). Segundo o GDS, a metanfetamina foi a droga que mais causou atendimentos médicos após o uso, ao passo que cogumelos alucinógenos foi a que teve menos registro de problemas médicos após o uso. Com uma linguagem simples, clara e leve, eles explicam os resultados da pesquisa e dão dicas para o uso mais seguro. Um dos tópicos abordados foi a porcentagem de pessoas que gostariam de usar menos determinada droga e quantas dessas pessoas precisariam de ajuda para realizar essa tarefa. O objetivo do GDS não é somente a pesquisa, mas através dos dados adquiridos, eles produzem diversos guias que auxiliam o usuário a utilizar drogas de maneira mais segura, além de indicar possíveis problemas de dependência e como resolvê-los.

Ainda estamos longe de poder tratar esse tema de maneira imparcial e livre de preconceitos, mas pesquisas como a da GDS e das universidades brasileiras ajudam a desmistificar e trazem informações de qualidade que dão base ao debate. Usuários terapêuticos, recreativos e sociedade como um todo só tem a ganhar com essa discussão.

Referências:
-RDC Nº 156 de maio de 2017. Inclui a Cannabis na lista de plantas medicinais.
-http://portal.anvisa.gov.br/rss/-/asset_publisher/Zk4q6UQCj9Pn/content/id/3401316
-http://g1.globo.com/bemestar/noticia/anvisa-inclui-cannabis-sativa-em-lista-de-plantas-medicinais.ghtml
-http://jornal.usp.br/universidade/usp-tera-primeiro-centro-de-pesquisa-em-canabidiol-do-pais/
-http://istoe.com.br/364676_MACONHA+MEDICINAL+NO+BRASIL/
-https://www.revide.com.br/editorias/novidade/pesquisas-em-canabinoides-49/
-https://www.globaldrugsurvey.com/

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Biologia precisa de mais cientistas profissionais

     A matéria, da Revista Nature, fala sobre como profissionais independentes podem trazer avanço à ciência de uma maneira que laboratórios e profissionais ligados a universidades dificilmente conseguem. Além disso, é uma maneira de manter pessoas talentosas pesquisando.
     Um dos exemplos é a cientista Stacey Gabriel, a qual foi co-autora de 25 dos papers mais citados em 2015. Ela trabalha no Broad Institute, uma instituição criada em 2004 com o intuito de ajudar a responder questões complexas na área de biomedicina. A fórmula do sucesso de Broad Institute, e consequentemente da Stacey, é unir cientistas de diversos ramos da ciência e trabalhar de maneira integrada. A ideia é colaborar em grandes projetos, muito além de teses de doutorado ou pós, de maneira criativa e ambiciosa respondendo a grandes questões da ciência.
     A matéria também fala de outros exemplos de sucesso, principalmente na área da física, como o CERN e Jet Propulsion Laboratory. As ciências biomédicas também contam com outros exemplos de laboratórios e institutos como o Broad, mas ainda são poucos. Segundo o artigo, uma das maiores dificuldades é quebrar a resistência de pesquisadores filiados a universidades preocupados com a concorrência por espaços e recursos destinados à ciência. Além disso, cientistas profissionais competem com a “mão-de-obra barata” de estudantes de pós-graduação. Stacey explica que o intuito desses institutos é colaborar e responder questões que para laboratórios convencionais seriam muito desafiadores. Ela ainda diz que cientistas profissionais permitem às instituições terem projetos com escopo e escala sem precedentes. Além disso, criaria empregos para diversos pesquisadores talentosos, que adoram ciência e tecnologia, mas não querem correr atrás das escarças vagas ligadas a universidades.

Para ler a reportagem completa é só acessar esse link!
Para saber mais sobre o Broad Institute, clique aqui.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Ciclo de Krebs e a escadinha para o descobrimento do início da vida

     Todo mundo que prestou um pouco de atenção às aulas de ciências e biologia durante o colégio deve se lembrar, mesmo que vagamente, do Ciclo de Krebs (ou Ciclo do Ácido Cítrico). Rapidamente, o ciclo de Krebs é na verdade uma série de reações químicas que acontecem no interior das mitocôndrias e utiliza ácido produtos da degradação da glicose e oxigênio (entre vários outros precursores) para gerar energia em formato de ATP e precursores de outras vias metabólicas importantes.

     Existem diversas teorias sobre o início e a ubiquidade do ciclo, já que ele está presente em todos os organismos eucariotos. Uma delas diz que o ciclo de Krebs é anterior aos seres vivos, propondo que ao menos partes das suas reações teriam ocorrido de maneira inorgânica no ambiente sem a necessidade de enzimas (que não poderiam existir, já que não existiam seres vivos, nem DNA, nem RNA e muito menos proteínas). Um crítico dessa teoria era o cientista Leslie E. Orgel (autor da hipótese do mundo de RNA). Segundo ele, em um artigo publicado após sua morte, a hipótese de que ciclos metabólicos tenham existido de maneira inorgânica é baseada em pesquisas, as quais apesar de levar em conta a possibilidade dessas reações, se esquecem da probabilidade delas acontecerem, da viabilidade dos compostos e, muitas vezes, propõe cenários irreais para o acontecimento dessas vias. A meu ver, sua crítica não era a respeito da teoria em si, mas da falta de avaliação crítica dos resultados.
     Em 2011, quando cientistas da NASA encontraram compostos que participam do ciclo de Krebs em um meteorito carbonáceo, a discussão ficou mais acirrada. Então, em 2017, foi publicado um estudo que analisou a possibilidade das reações do ciclo de Krebs acontecerem sem a necessidade de enzimas, ou seja, de maneira totalmente inorgânica. É importante dizer que esse trabalho foi baseado nos resultados de aproximadamente 4.850 experimentos (!) que analisaram a reatividade de intermediários do ciclo de Krebs na presença de típicos constituintes de sedimentos da era arqueozoica. Na minha humilde opinião, esse artigo foi uma resposta, à altura, das críticas de Orgel.
     Nesse trabalho, de Keller e colaboradores, foram testadas diversas combinações de sedimentos e íons com intermediários do ciclo de Krebs. Alguns sedimentos testados reagiram com alguns intermediários, mas, em geral, essas reações foram fracas, lentas e não envolviam todos os intermediários. Apesar disso, segundo os autores, mesmo essas reações já eram uma indicação convincente de que ao menos algumas partes do ciclo de Krebs eram viáveis sem a presença de enzimas. Entretanto, um espectro muito maior de reações foi visto em presença de peroxydissulfato. Com a adição desse composto foram detectadas 24 reações com metabólitos do ciclo de Krebs, as reações ficaram consideravelmente mais rápidas e os intermediários foram observados em proporções mínimas após a formação dos metabólitos do ciclo.
     Umas das críticas do Leslie Orgel era o fato de que vários estudos propunham cenários irreais para a explicação dos resultados. Nas suas palavras: “solutions offered by supporters of geneticist or metabolist scenarios that are dependent on “if pigs could fly” are unlikely to help” (soluções oferecidas pelos apoiadores de cenários geneticistas e metabólicos que são dependentes de “se porcos pudessem voar” dificilmente ajudam – tradução livre).


     Ao que parece, Keller e colaboradores se importaram com essa afirmação e, assim, determinaram condições plausíveis para os experimentos. Foram excluídas condições químicas que seriam inviáveis dentro de células, como luz ultravioleta, pressão alta e temperaturas acima de 100ºC. Eles também evitaram condições e metais que não possuem nenhum papel no metabolismo (titânio e borato). Foram utilizadas apenas moléculas baseadas em importantes elementos para o metabolismo e que são componentes frequentes de sedimentos arqueozoicos, pouco oxigênio e temperaturas de até 70ºC.
Segundo os pesquisadores, as reações iguais as do ciclo de Krebs ocorreram com a adição de peroxidissulfato possivelmente dependente da formação de radicais sulfato. As reações não enzimáticas foram muito específicas, sendo superior à glicólise in vitro utilizando enzimas de E.coli purificadas. Uma das explicações dessa especificidade são as propriedades físico-químicas dos radicais sulfato.
     Com todos esses resultado e baseado na simplicidade dessas condições ambientais não é difícil concluir que o ciclo de Krebs pode ter surgido de precursores não enzimáticos que se formam espontaneamente na presença de radicais sulfato. A pergunta agora é: esses precursores estavam na Terra ou vieram de outros lugares?

Bibliografia:
Keller, M. A., Kampjut, D., Harrison, S. A. & Ralser, M. Sulfate radicals enable a non-enzymatic Krebs cycle precursor. Nat. Ecol. Evol. 1, 0083 (2017).

Orgel LE (2008) The implausibility of metabolic cycles on the prebiotic earth. PLoS Biol 6(1): e18. doi:10.1371/journal.pbio.0060018

Cooper G, Reed C, Nguyen D, Carter M, Wang Y. Detection and formation scenario of citric acid, pyruvic acid, and other possible metabolism precursors in carbonaceous meteorites. PNAS, 108 (34) - 14015–14020 (2011).

quinta-feira, 2 de março de 2017

Alternativa aos opióides

Opióides são substâncias derivadas do ópio e utilizadas (na medicina) para o tratamento de dor crônica. O opióide mais conhecido é a morfina e é dela que deriva a droga opióide mais utilizada, a heroína. O ópio é utilizado desde o período neolítico como calmante, sonífero, veneno ou para fins recreativos. Há diversas menções ao seu uso e suas funções em civilizações remotas e até na bíblia. Somente no século II dC é que o ópio começou a ser utilizado no tratamento da dor e que tomou-se conhecimento das consequências do abuso dessa substância. Atualmente, derivados do ópio (naturais e sintéticos) são muito utilizados no tratamento de dor pós cirúrgica, dor crônica, câncer, etc. O problema começa quando, além de não ser 100% eficiente, alguns pacientes desenvolvem tolerância, alergia ou dependência dessa droga. Mesmo em pacientes que não apresentam nenhum desses problemas, a droga pode trazer efeitos colaterais bem sérios.
Papaver somniferum - ópio é extraído dos frutos imaturos.

Um estudo de 2012 (1) mostrou que pacientes que receberam altas doses de opiáceos para tratamento de dores nas costas foram os que mais utilizaram os serviços de emergência médica. Além disso, eles tinham maior número de prescrições, o que poderia indicar a não resolução do problema com opiáceos. Já outro trabalho de 2016 (2), mostra o uso prolongado de opióides até 6 meses após cirurgias de joelho e quadril mesmo depois da melhora da dor. Segundo a autora, o fator mais decisivo para continuação do uso era o uso pré-operatório de morfina. Até 80% dos pacientes que já tomavam morfina antes da cirurgia continuaram tomando mesmo após a recuperação, mostrando uma possível dependência da droga.
Em 2015, um estudo mostrou que era possível manejar a dependência de opióides e, assim, prevenir que pacientes continuem aumentando mais e mais as doses (3). Nesse estudo, eles descobriram uma proteína (CXCL 1) que é responsável pela tolerância a opioídes. Tanto em humanos, quanto em ratos, essa proteína era mais expressa quanto maior a dose de opióide administrada. Após essa fase, os autores conseguiram bloquear a expressão dessa proteína em ratos e verificaram que a eficácia do opióide se manteve mesmo após altas doses e tratamentos prolongados.
Já em 2017, foi publicado um estudo na PNAS onde foi isolada uma substância tão eficaz quanto opióides para o tratamento da dor e que utiliza uma via diferente deste (4). A substância em questão é uma molécula, utilizada como veneno, produzida por um pequeno gastrópode que vive no mar do Caribe (Conus regius). O composto, chamado Rg1A, é capaz de neutralizar a dor utilizando uma via de sinalização diferente da dos opióides. Além disso, o efeito é tão duradouro que mesmo depois da substância ser excretada do corpo, ela continua fazendo efeito por até 72 horas, sugerindo que o composto tenha um efeito restaurativo em alguns componentes do sistema nervoso. A esperança dos autores é que essa substância possa ser utilizada em pessoas tolerantes, alérgicas ou que por alguma razão não possam utilizar opióides. Poucas são as drogas conhecidas que trabalham por uma via de sinalização diferente dos opióides e a maioria delas não é muito efetiva. A próxima fase de estudos será realizar testes clínicos para determinar a efetividade e segurança dessa substância.

1.       Amy M. Kobus, David H. Smith, Benjamin J. Morasco, Eric S. Johnson, Xiuhai Yang, Amanda F. Petrik, Richard A. Deyo. Correlates of Higher-Dose Opioid Medication Use for Low Back Pain in Primary CareThe Journal of Pain, 2012; 13 (11): 1131 DOI: 10.1016/j.jpain.2012.09.003.
2.       Jenna Goesling, Stephanie E. Moser, Bilal Zaidi, Afton L. Hassett, Paul Hilliard, Brian Hallstrom, Daniel J. Clauw, Chad M. Brummett. Trends and predictors of opioid use after total knee and total hip arthroplasty. PAIN, 2016; 157 (6): 1259.
3.       Chih-Peng Lin, Kai-Hsiang Kang, Tzu-Hung Lin, Ming-Yueh Wu, Houng-Chi Liou, Woei-Jer Chuang, Wei-Zen Sun, Wen-Mei Fu. Role of Spinal CXCL1 (GROα) in Opioid Tolerance. Anesthesiology, 2014; 1 DOI: 10.1097/ALN.0000000000000523.

4.       Haylie K. Romero et al. Inhibition of α9α10 nicotinic acetylcholine receptors prevents chemotherapy-induced neuropathic pain. PNAS, February 2017 DOI: 10.1073/pnas.1621433114

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Evolução como fato

A Teoria da Evolução, formulada por Charles Darwin (e Alfred Wallace) não é mais só uma teoria. E já faz tempo. Evolução sempre foi minha disciplina favorita da Biologia. É uma grande história, complexa e bonita. Depois que eu comecei a trabalhar com evolução eu vi a dificuldade de contar essa história. Eu admito que acho uma área da ciência mega difícil porque é multidisciplinar, é confuso, nem sempre temos todas as peças para montar uma história bonita, mas ainda assim é uma disciplina encantadora.
A evolução normalmente não é uma coisa palpável e não acontece num lapso de tempo que podemos presenciar. Normalmente é algo que podemos somente imaginar e “ver” através de dados coletados de fósseis, dados genéticos, geologia, biogeografia, etc. Nem todo mundo tem esse poder de abstração e, talvez por isso, nem todo mundo ache que evolução seja uma coisa real. Percebam que eu escrevi “normalmente” porque isso está prestes a mudar.
Já não é de hoje que cientistas tentam provar a teoria da evolução através de organismos que evoluem rapidamente, como vírus e bactérias. Hoje já podemos ver os resultados (não somente dados coletados) em questão de anos, poucos anos.
O estudo mais recente sobre esse assunto é de autoria de Justin Meyer e colaboradores e será publicado essa semana no periódico Science. Eles estudaram o processo de especiação no bacteriófago lambda (um vírus que infecta bactérias – inofensivo ao ser humano) que possui gerações rápidas e alta taxa de recombinação. Eles fizeram uma série de experimentos infectando cepas de E. coli que possuíam dois tipos diferentes de receptores para bacteriófagos lambda. Quando a cepa de E. coli possuía somente um tipo de receptor, o vírus melhorava sua ligação com esse receptor ao mesmo tempo que perdia a habilidade de ligar no outro receptor. Já quando o vírus era posto com bacteriófagos com ambos tipos de receptores, ele separava em duas linhagens com diferentes preferências de receptor. Algumas linhagens desenvolveram até isolamento reprodutivo e incompatibilidades genéticas.
Outro estudo, do pesquisador Marcus Kronforst e colaboradores, estudou especiação em borboletas do gênero Heliconius. O mais interessante desse artigo foi a descoberta que poucas mudanças genômicas já são suficientes para a formação de uma nova espécie, mesmo quando há fluxo gênico (essas borboletas são conhecidas por formarem muitos híbridos). No caso das borboletas, algumas mudanças no padrão de coloração das asas (muito importantes para evitar a predação e para o acasalamento) já eram suficientes para o surgimento de uma nova espécie. Além disso, o artigo também conclui que as divergências evoluem rapidamente após as primeiras mudanças sugerindo que não existe uma relação linear entre tempo de especiação e divergências acumuladas.
Outro estudo que mostra rápida especiação (dessa vez em vertebrados) é um estudo conduzido pelo pesquisador David Marques e colaboradores. Eles avaliaram populações de um peixe (Gasterosteus aculeatus) residentes em lagos migratórios e vivem em simpatria e parapatria (dois tipos de especiação sem barreira). Eles examinaram diferentes ecotipos de peixes nos diferentes lagos e identificaram diferenças genômicas mesmo com populações que estão em contato umas com as outras. Essas divergências evolutivas provavelmente se dão por pressões diferentes em cada habitats. Eles concluem que essas adaptações ao ambiente se dão logo nos primeiros anos de divergência de habitat (no caso dessas lagoas foram 150 anos até agora) e podem persistir mesmo com os indivíduos vivendo em simpatria (em que as populações mantém contato uma com a outra). Esse foi o primeiro caso que se conseguiu verificar o início de uma provável especiação simpátrica e parapátrica. A maioria dos autores trabalham com especiação alopátrica que é aquela em que existe uma barreira (geográfica ou ambiental) separando as populações.
Diante de tudo isso, não há como negar a existência da evolução e, se me permitem, não há como não concordar que ela é linda.
No Brasil, há diversos laboratórios que trabalham com evolução de espécies, coletando dados moleculares, morfológicos, geológicos, etc. Há uma série de ramos para se trabalhar: filogeografia, filogenia, biogeografia e mais uma série de ramificações em cada um desses. Difícil mesmo é escolher. Não vou citar todos laboratórios e universidades que trabalham com esse tema, mas vou deixar nas referências os dois que eu trabalhei e conheço (ambos no RS).

Quem tiver mais interesse é só dar uma espiada no departamento de biologia da universidade mais próxima que provavelmente vai encontrar alguma coisa.

Referências:








quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Imagens Microscópicas

Imagens de natureza já são lindas, agora imagens feitas com microscópios de coisas que não conseguimos ver são deslumbrantes. Essa semana eu vi uma série de imagens de uma coletânea de 2016 e são de tirar o fôlego. As minhas preferidas são de cristais porque são muito coloridas, mas todas são maravilhosas e eu quero tatuar em mim!
Visite o site http://www.businessinsider.com/best-microscope-photography-nikon-small-world-2016-10/#red-speckled-jewel-beetle-1 e fique maravilhado também.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Nobel Prize 2016 Fisiologia e Medicina: Yoshinori Ohsumi

Bom, pra começo de conversa, vamos falar que o ganhador do prêmio esse ano foi um BIÓLOGO! Quem disse que biólogos não ganham dinheiro? É só ganhar o Nobel. Enfim, vamos ao que interessa: o que fez esse prestigioso colega de profissão ganhar esse que é um dos maiores prêmios da ciência? Ele estudou o processo conhecido com autofagia e descobriu diversos genes envolvidos.
Autofagia é basicamente um processo de reciclagem celular. Nesse processo, proteínas, lipídios, carboidratos e até organelas inteiras são degradadas. Em 1992, quando Ohsumi publicou seu primeiro artigo a respeito disso, já se conheciam os lisossomos e se sabia que existiam rotas de degradação de proteínas através do lisossomo e sem a participação deste. O que não se sabia eram os detalhes de como acontecia, o que acontecia dentro dos vacúolos (representantes dos lisossomos nas leveduras), quais proteínas ou genes eram responsáveis por esse processo, qual a proporção de degradação vacuolar no processo de turnover de proteínas e o que estimulava esse processo. Todas essas perguntas foram respondidas em um único artigo sensacional publicado pelo Ohsumi em 1992. Ele não só desvendou boa parte do processo, como também desenvolveu um protocolo para trabalhar não só com leveduras, mas com outros tipos de células.
O que já se sabia? Que algumas enzimas tinham um papel chave na degradação vacuolar das leveduras e que privação de alguns nutrientes possivelmente aumentava a quantidade de degradação de proteínas. Com essas informações, Ohsumi conseguiu montar um experimento no qual ele expunha algumas linhagens de levedura a privação de nutrientes e verificava se havia acúmulo de materiais no vacúolo.
Ele utilizou uma série de diferentes meios de cultura deficientes em nitrogênio ou aminoácidos específicos e verificou diferenças na formação de vacúolos. O meio com deficiência de nitrogênio era onde havia maior formação de vacúolos. Em alguns casos, após 3 horas, os vacúolos estavam tão cheios que já não era possível verificar movimento dentro deles (figura 1). 

Na avaliação microscópica desses vacúolos, foi visto que o conteúdo era basicamente o mesmo do citoplasma da levedura envolto em uma membrana mais fina que a de qualquer outra organela. A dedução foi que esses organismos poderiam sequestrar o conteúdo citoplasmático e evolve-lo com uma membrana. A conclusão foi que os corpos dentro dos vacúolos foram formados através de um processo que ele denominou autofagia. Esses corpos foram então denominados corpos autofágicos.
Foi verificado que tanto deficiência em nitrogênio, quanto em carboidratos resultavam em acúmulo de conteúdo nos vacúolos, mas com algumas diferenças morfológicas.
E após uma série de experimentos com diferentes bloqueadores enzimáticos, eles perceberam que uma das principais enzimas responsável pela degradação do conteúdo vacuolar era a proteinase B.
E o que tudo isso afinal tem de tão interessante e importante para ganhar um Nobel? É que a descoberta de detalhes desse mecanismo celular levou a descobertas de novos medicamentos para o tratamento de câncer, Alzheimer, Parkinson, Huntington, entre outras. Diversos laboratórios vem tentando descobrir e aperfeiçoar técnicas para induzir a autofagia (o que diminuiria o avanço de doenças causadas pelo acúmulo de proteínas na célula, como Alzheimer) ou diminuir em determinadas células (células cancerígenas, por exemplo, que tem algum defeito no processo autofágico são mais propensas a morte celular – apoptose). Existem diversos laboratórios que trabalham com esse assunto aqui no Brasil (inclusive um do meu antigo professor Guido Lenz na UFRGS). Grandes descobertas ainda vem por ai, mas tudo começou a andar com mais força graças ao ganhador do prêmio Nobel de fisiologia ou medicina, o BIÓLOGO Yoshinori Ohsumi.
Referências:
Referências Brasileiras: