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segunda-feira, 24 de julho de 2017

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A zika é transmitida principalmente por picadas do mosquito Aedes aegypti, mas já se conhece alguns casos em que houve transmissão sexual. Pesquisas mostram que o esperma pode funcionar como um reservatório do vírus até meses após a infecção, aumentando as chances de propagação da doença. Agora cientistas estão testando uma vacina que protege os testículos e o esperma contra os danos causados pelo zika vírus e impede a propagação através da relação sexual. A vacina já passou da primeira fase de testes. Essa fase é testada em animais e mostra se a vacina é segura e eficaz contra o vírus. Segundo os resultados, 100% dos animais vacinados ficaram protegidos.

Fonte: www.sciencedaily.com/releases/2017/07/170711125706.htm


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quarta-feira, 5 de julho de 2017

Estratégias para redução de epidemias causadas por insetos- Zika e Dengue em foco.

As duas maiores epidemias do Brasil atualmente –Dengue e Zika – são objeto de grande preocupação para quem trabalha com saúde pública. O vírus da dengue (que em 2016 afetou mais de 1,5 milhões de pessoas) e o vírus da zika (que teve mais de 200 mil casos registrados em 2016) são transmitidos pelo mesmo vetor: o mosquito Aedes aegypti. Atualmente nenhuma das duas doenças possui vacina e a única forma de prevenção é não ser picado por mosquitos contaminados. As vacinas para ambas as doenças estão sendo testadas, mas ainda estamos longe de podermos contar com elas. Com isso, para tentar aplacar os números monstruosos de doentes, só resta aos promotores de saúde pública criar políticas para diminuir o número de mosquitos (a população é responsável por fazer a sua parte também, óbvio).
Figura 1: Mosquito Aedes aegypti por Raul Santana / Multimagens / Fiocruz
O pequeno organismo denominado Aedes aegypti é originário do Egito, na África. Ele foi descrito em 1762, mas somente passou a ter o nome atual em 1818. Essa espécie é extremamente adaptável, podendo colonizar diversos ambientes e assim vem fazendo desde o século XVI, sendo carregado principalmente por navios que traficavam escravos. De carona com o mosquito, vieram também os vírus que ele pode incubar (pesquisadores estimam que ele possa ser vetor de até 17 vírus*). Os primeiros casos de dengue foram registrados no Brasil no século XIX, em Curitiba. Apesar disso, a grande preocupação da época era outro vírus que este mosquito transmitia: o vírus da febre amarela. Por conta da epidemia de febre amarela (não só no Brasil, mas em todo continente americano), diversos programas de erradicação foram desenvolvidos. No Brasil, o primeiro programa de controle do mosquito começou em 1920 com Oswaldo Cruz, mas o programa responsável pela erradicação desse organismo, em 1955, foi o programa coordenado pela Organização Pan-Americana de Saúde e pela Organização Mundial de Saúde.
Apesar de ter sido erradicado do Brasil, não é novidade pra ninguém que o A. aegypti está de volta e mais forte que nunca. Portanto, campanhas de controle e erradicação continuam sendo criadas e ainda mantemos a esperança que o que aconteceu em 1955, aconteça novamente. Pensando nisso, pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz estão testando o impacto de A. aegypti contaminados por uma bactéria que diminuiria a fertilidade nesses organismos e atuaria no controle da infecção dos vírus por eles disseminados. A bactéria utilizada é do gênero Wolbachia. Esse gênero de bactérias atua como endosimbionte em artrópodes e alguns nematódeos.
A ideia de infectar mosquitos com Wolbachia para controle de população não é tão nova. Há alguns anos já se sabe que essa bactéria tem influência na fertilidade dos mosquitos. Ela induz uma anormalidade reprodutiva conhecida como incompatibilidade endoplasmática, que resulta na morte precoce do embrião quando machos infectados com Wolbachia cruzam com fêmeas não infectadas (ou que estão infectadas com outra cepa de Wolbachia). Além disso, quando um macho infectado cruza com uma fêmea infectada pela mesma cepa, o embrião consegue se desenvolver normalmente e toda a prole estará infectada com Wolbachia. Essa estratégia garante que mosquitos infectados tenham mais sucesso reprodutivo que mosquitos não infectados. Mas porque queremos mosquitos infectados por Wolbachia? Porque foi demonstrado que algumas cepas dessa bactéria diminuiriam a replicação viral, disseminação e transmissão do vírus da dengue por esses mosquitos. Dependendo da cepa, ela age de maneira diferente para controlar o vírus. Uma delas, chamada porcorn, induz a morte precoce do mosquito após a infecção deste pelo vírus da dengue. Já outras cepas aumentam a imunidade dos mosquitos, impedindo a infecção pelo vírus da dengue.
Falamos bastante da relação entre dengue e Wolbachia e é importante salientar que essa bactéria impede a proliferação do vírus da Zika da mesma maneira. Já existem diversos trabalhos mostrando isso, e muitos deles são produzidos aqui no Brasil. Só esse ano, a ONU liberou verbas para 17 centros de pesquisas envolvendo Zika vírus e sete desses centros estão no Brasil. Não é só a área acadêmica que está trabalhando muito por conta dessa epidemia. Instituições de apoio, principalmente à mulher, estão fazendo um ótimo trabalho em relação aos casos de microcefalia causados pelo Zika vírus.
Figura 2: O esquema mostra a diminuição da infecção de Zika no mosquito infectado por Wolbachia. Dutra HLC, et al.

Em abril desse ano, a Fundação Oswaldo Cruz liberou mais uma leva de mosquitos infectados por Wolbachia no município de Niterói (RJ). Isso já vem acontecendo desde 2012 em algumas regiões do estado do RJ. Apesar disso, em 2015 houve aumento no número de casos em praticamente todas as regiões do RJ. Segundo especialistas, esse aumento se dá por conta da descontinuidade das atividades de vigilância epidemiológica que são interrompidas nos estados e municípios. É necessário ter uma constância no controle do mosquito, pois caso contrário, as doenças continuarão aumentando. Esse alerta vale não só para as autoridades, mas para a população em geral que é parte fundamental desse controle. Eliminar os focos de água parada (não só água limpa, pois o mosquito já consegue se reproduzir em água suja) é um gesto de extrema importância, com resultados excelentes e só depende de você.
 *Apesar de poder ser vetor de 17 vírus, ele não pode carregar mais de um por vez. Então se o mosquito está infectado com o vírus da dengue, ele não tem o vírus da zika. (http://infograficos.estadao.com.br/cidades/aedes-aegypti-emergencia-internacional/doencas.php).

Referências:

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A falta de conhecimento de patógenos causadores de doenças e como isso é mais pronunciado nos trópicos.

Cientistas do mundo todo estão muito preocupados com o descaso dado a diversas doenças importantes. Na última edição da revista Nature Ecology and Evolution cientistas da Holanda, Reino Unido e Estados Unidos chamam atenção para a falta de conhecimento que temos em relação a alguns patógenos que juntos causam aproximadamente 10 milhões de mortes por ano.  Segundo a autora da correspondência, Anna-Sofie Stensgaard, professora assistente da Universidade de Copenhagen, existe um viés de atenção dado a patógenos novos (como vírus da Zika) ao passo que “velhos” patógenos permanecem praticamente desconhecidos e causando muitos danos (por exemplo, o vírus da dengue).
Quem acaba sofrendo mais com esses danos são os trópicos. Pelo seu clima quente e úmido, a proliferação de insetos é facilitada nessas regiões e, com ela, a proliferação das doenças incubadas por esses insetos. Além disso, são nessas regiões tropicais (entre as latitudes 35ºN e 35ºS) que estão concentradas as regiões mais pobres do planeta – África Subsaariana, Ásia e América Latina. O Brasil, segundo a Organização Mundial de Saúde, possui nove das dez doenças tropicais mais negligenciadas. Um artigo de revisão de 2013 feito por um grupo de profissionais de hospitais e universidades dos Estados Unidos e Japão mapeou mundialmente doenças infecciosas e chegou à conclusão que, das 355 doenças infecciosas identificadas, possuímos informações suficientes a respeito de somente 4% delas. Sem dados de história natural dos patógenos e das doenças, dinâmica de transmissão e ocorrência é muito difícil tomar decisões a respeito da prevenção e tratamento dessas doenças. Por exemplo, como saber aonde alocar mais recursos sem saber qual a área afetada pela doença e quais pessoas tem mais risco de serem contaminadas? Além da falta de dados, os autores dessa revisão também chamam a atenção a respeito dos dados que já existem. Alguns não foram criados com o propósito de mapear doenças e, com isso, acabam sendo de pouca utilidade para tal. No mesmo ano, um dos autores dessa revisão, Simon Hay, professor da Universidade de Oxford (UK), e colaboradores fizeram um trabalho com informações a respeito da dengue. Eles conseguiram mapear ocorrência, evidências e número de infecções a nível global, mostrando que é possível construir uma plataforma com informações sobre doenças infecciosas.
Mapa informativo com dados de evidência, ocorrência e número de infecções por região.
Portanto, a ideia de Anna-Sofie não é nova e, melhor ainda, é viável. Para provar que é possível, ela dá o exemplo de uma plataforma de sucesso de dados de biodiversidade: A Global Biodiversity InformationFacility (GBIF). A GBIF é uma plataforma que permite que qualquer pessoa, em qualquer lugar, acesse dados sobre biodiversidade. O Brasil ainda não faz parte dessa plataforma, mas mesmo assim é possível acessar informações sobre as mais de 1.6 milhões de espécies contidas nessa base de dados. Segundo Professor Carsten Rahbek, autor sênior da correspondência, após pesquisadores e governos entenderem a importância dessa base de dados para doenças infecciosas, os fundos e a colaboração de especialistas não serão difíceis de conseguir (eu achei ele bem otimista!). Ele ainda ressalta a importância desses dados no atual momento em que enfrentamos mudanças climáticas, urbanização descontrolada e agricultura intensiva. Sem esses dados, será impossível prever como esses organismos de interesse médico irão se comportar o que pode gerar uma catástrofe.

Referências: